Foto: Livían Alves/AMIRT
O jornalista e radialista Emanuel Carneiro, referência da radiodifusão em Minas Gerais, lançou em março deste ano o livro “No Ar”. Em entrevista exclusiva à AMIRT, o autor comentou que a obra reúne relatos pessoais sobre momentos marcantes da sua trajetória profissional, em que dedicou décadas à Rádio Itatiaia, emissora fundada em 1952 por seu irmão Januário Carneiro.
Emanuel iniciou sua trajetória com 13 anos, como office boy na Itatiaia, e construiu uma carreira que atravessou gerações de ouvintes. Após a morte do fundador da emissora, assumiu o comando da empresa e permaneceu à frente da rádio até 2021, quando o grupo foi vendido, em suas palavras, à pessoa física do empresário Rubens Menin. Atualmente, ele dirige a Light FM e é presidente de honra da Associação Mineira de Rádio e Televisão (AMIRT).
Histórias que marcaram o rádio
Segundo Emanuel Carneiro, o livro nasceu da vontade de registrar fatos vividos ao longo de mais de meio século de atuação no rádio, motivado por perguntas frequentes de ouvintes e colegas sobre episódios históricos da emissora, como a criação da vinheta.
“Sempre alguém me perguntava assim: ‘Como é que foi gravada aquela vinheta Ita-ti-a-ia? Aquilo foi feito nos Estados Unidos?’ Eu explicava: ‘Não, aquilo foi feito em Belo Horizonte, pelo pessoal da Bemol’. ‘E quem é o locutor?’ ‘É o Zé Lino, o falecido Zé Lino.’ Eles me perguntavam: ‘Como é que foi a cobertura da Copa da Alemanha, das Olimpíadas, da tragédia da Gameleira… como é que vocês ficaram sabendo, na frente de todo mundo, que aquilo tinha desabado?'”
O radialista evidencia a influência da sua esposa, Ilma Araújo, para fazer a produção virar realidade:
“Numa viagem à Espanha, de carro, eu fui contando para a minha mulher, a Ilma Araújo, as histórias da Itatiaia. Ela dirigindo e eu de carona. Ela falou: ‘Não, você tem que fazer um livro, você tem que contar essas histórias, tem que celebrar figuras importantes que passaram pela Itatiaia.’ E fui pensando nisso, o tempo foi passando, e ela comprou uma caderneta (em Bilbao) e foi anotando as histórias (…) Me encontrei com o escritor Chico Branche, que me incentivou, e nós começamos, fizemos reuniões e tudo mais.”
O autor explica que a obra não pretende ser uma biografia completa nem uma história institucional da Itatiaia, mas sim um conjunto de relatos que ajudam a compreender momentos importantes do rádio e da comunicação em Minas Gerais.
“Então, este não é um livro de histórias da Itatiaia, biografia minha ou história do que é e foi a Itatiaia até aqui. São fatos, mais de 30 fatos, que eu quis dar um depoimento pessoal daquilo que eu vi e vivi durante esse período.”
Para construir o conteúdo, Emanuel realizou pesquisas, buscou arquivos e reuniu fotografias e relatos que ajudam a contextualizar os acontecimentos narrados.

Foto: Lívian Alves/AMIRT
O significado do título “No Ar”
O título da obra faz referência direta ao cotidiano do rádio. Segundo o jornalista, a expressão simboliza o momento em que o locutor assume o microfone e estabelece a conexão direta com o público.
“Essa plaquinha ‘no ar’, ela está em praticamente todos os estúdios de rádio, é quando o operador abre o microfone e acende uma luzinha, dizendo que a palavra agora é do locutor.”
O radialista lembra que, ao longo da carreira, participou de diferentes momentos da programação, desde plantões até programas esportivos e jornadas de transmissão.
“Eu estive nos estúdios o tempo todo, fazendo plantão, fazendo programas e participando de jornadas esportivas. Apresentava o Rádio Esportes na hora do almoço, depois eu apresentava a Turma do bate-bola, criei a Turma do bate-bola, isso em 1966, depois da Copa do Mundo da Inglaterra. E ‘no ar’ representa aquilo que você transmite, que é a sua vez de falar.”
O papel do locutor e a responsabilidade com o público
Lembrando momentos como presidente da Itatiaia, Carneiro também destacou a responsabilidade de quem está diante do microfone, ressaltando que o locutor representa a emissora no contato direto com o público:
“Na minha opinião, o presidente da Itatiaia, a pessoa mais importante da emissora, era aquele que estava no ar, falando para o público, porque qualquer erro dele, qualquer notícia mal concebida, tudo isso representava um prejuízo muito grande, por isso a responsabilidade era enorme.”
Segundo ele, essa responsabilidade sempre esteve no centro da prática jornalística na rádio, especialmente em momentos de crise, tragédias ou grandes acontecimentos:
“Eu, como presidente, assinava papéis, fazia reuniões, discutia contratos comerciais, mas aquilo que representava a emissora era o locutor em contato com o público.”

Foto: Lívian Alves/AMIRT
Memórias entre conquistas e desafios
Emanuel relembrou acontecimentos marcantes que misturam emoção, celebrações e também episódios desafiadores acompanhados pela rádio:
“Os campeonatos mundiais ganhos pelo Brasil, os títulos ganhos pelo Atlético, pelo Cruzeiro (…) tudo isso alegrava muito. Agora, havia também as tragédias e as enchentes de Belo Horizonte (…) com muitos mortos e com o comércio sendo afetado. Isso ficava muito ruim, as pessoas desabrigadas, os apelos… Então, a Itatiaia sempre foi muito solidária com a população, ela foi muito presente nos momentos de dificuldades, na época das crises econômicas, do confisco do dinheiro, as pessoas sem recursos para cumprir compromissos, isso era muito difícil de ser enfrentado.”
Para ele, a experiência de décadas no jornalismo radiofônico exige sensibilidade, mas também equilíbrio para manter a credibilidade da informação:
“Mas jornalista tem que ter um lado também um pouco duro, de acompanhar até com emoção, mas não se envolver pela notícia. Algumas tragédias, (como o) sujeito que faz uma chacina na família, desastres de ônibus, desastres nas estradas, isso é difícil de ser enfrentado, não é coisa que a pessoa faz a matéria, vai para casa e aquilo não tem repercussão mental. É um lado do jornalista que ele precisa conviver com muita força de vontade para que o fato não influencie na cobertura da notícia, isso é muito importante, e sem arranhar a credibilidade da informação.”
Um registro para preservar a memória do rádio
O jornalista afirma que o livro tem um caráter simples e direto, pensado para ser acessível aos leitores e preservar histórias importantes da comunicação mineira.
“É um livro fácil de ler, com fotografias, com ilustração. Tudo isso deu trabalho, mas me agradou muito o resultado final.”
A obra também tem caráter solidário. Segundo o autor, parte da renda obtida com a venda será destinada a iniciativas sociais.
“É um livro, eu diria, até despretensioso. Não estou visando lucro. A venda do livro vai ser revertida, e já foi uma parte, para uma entidade social que ajuda os sertões de Minas Gerais.”
Com “No Ar”, Emanuel Carneiro transforma sua experiência em um registro histórico que ajuda a preservar a memória da radiodifusão mineira e valoriza o papel do rádio na formação da sociedade e da informação no Brasil.

