Montagem: Tudo por uma segunda chance (Globo), A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário (Bewings Entertainment) e Encontrei um Marido Bilionário e Sem Teto para o Natal (Zohar Cinema) são exemplos de microdramas (Crédito: Reprodução)
Elaborado pela VML, o The Future 100: Latam 2026 analisa as principais tendências globais que podem transformar o mercado e impulsionar o crescimento no ano. A edição recém-lançada do relatório, pela primeira vez, se debruça sobre as especificidades da América Latina e como a região tem impactado o mercado global.
Os insights e os dados foram coletados pela Sonar, unidade de pesquisa e consultoria da agência do WPP, em um levantamento realizado entre 24 de setembro e 3 de novembro de 2025. Para o recorte latino-americano, foram entrevistados em torno de quatro mil adultos distribuídos entre Brasil, Argentina, Colômbia e México.
A metodologia assegurou amostras representativas de cada mercado em termos de idade, gênero e renda, permitindo, com isso, a identificação de 100 tendências em 10 setores estratégicos, que ajudam a mapear as transformações no consumo, na tecnologia e no comportamento social para o próximo ciclo.
Confira abaixo cinco tendências apresentadas pela pesquisa, sob a ótica da chief strategy officer (CSO) da VML Brasil, Stella Pirani:
1 – Entropismo
O entropismo diz respeito à capacidade de criar a partir do caos e da imperfeição. “As estéticas imperfeitas preparam o terreno para uma renovação criativa”, afirma o relatório, que é endossado por Stella:
“Diante de um sistema de crises, o brasileiro transforma o ‘grit’ (garra) em renovação criativa”.
Na prática, para a comunicação das marcas, a tendência demanda a desconstrução da ideia de que o polido é sinônimo de qualidade. Para a CSO, em uma realidade saturada por filtros e perfeição gerada por inteligência artificial (IA), o impecável se tornou um sinal de alerta para o consumidor, por soar como artificial e, portanto, pouco confiável.
Dessa forma, abraçar o entropismo não é sobre beleza e feiura, mas sobre ser verdadeiro. Para marcas conservadoras, por exemplo, o argumento é estratégico: a imperfeição é a prova de humanidade e resiliência necessária para construir confiança real.
“No Brasil, essa estética é quase um retorno às nossas raízes de criatividade vibrante e mais ‘informal’, onde a beleza nasce da mistura e da vida como ela é. Convencer o conservadorismo exige mostrar que a estética limpa está morrendo por falta de alma. A autenticidade será o novo premium, e as marcas que insistirem no excesso de polimento correm o risco de se tornarem irrelevantes em um mar de mesmice algorítmica”, explica.
2 – Cultura dos mimos
A cultura dos mimos (ou treatonomics) é o gasto orientado ao prazer, a fim de proporcionar aos consumidores pequenos e valiosos momentos de alívio emocional. O traço comportamental, que ganhou relevância sobretudo nas gerações Z e millennials, obviamente, se torna uma oportunidade importante para as marcas.
“É fundamental em nossa economia volátil. O consumidor busca pequenos luxos acessíveis como ferramentas de bem-estar e manutenção do otimismo, transformando o consumo em um ato de resistência emocional”, explica a estrategista.
3 – Microdramas
De acordo com o The Future 100, os chamados microdramas se consolidam como uma nova maneira de gerar engajamento emocional. A CSO pontua que a ascensão do formato inverte a lógica tradicional: a marca deixa de interromper a história para se tornar a própria história.
“Saímos da busca por um ‘grande impacto’ único para uma estratégia de recorrência e profundidade emocional”.
O desafio, na opinião da executiva, é manter a qualidade narrativa em 60 segundos, garantindo que a integração da marca seja orgânica o suficiente para não gerar ceticismo, mas potente o suficiente para converter o engajamento em ação imediata.
Stella acrescenta que essa fragmentação exige que as marcas operem como estúdios de entretenimento, em que o sucesso não é imediato apenas pelo alcance, mas pela capacidade de criar um “universo” onde o consumidor queira habitar.
“Em 2026, a conexão real nasce da fluidez. O conteúdo precisa ser nativo, ágil e, acima de tudo, humano, combatendo o ‘doomscrolling’ (prática de consumir notícias ruins compulsivamente) com narrativas que respeitem o tempo do usuário e entreguem valor emocional instantâneo”, complementa.
Exemplos recentes de microdramas são Tudo por uma segunda chance (Globo), A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário (Bewings Entertainment) e Encontrei um Marido Bilionário e Sem Teto para o Natal (Zohar Cinema).
4 – Saúde mental e novo ativismo
Outro ponto de atenção, conforme a CSO, é a saúde social, que engloba, sobretudo, a importância dos vínculos e senso de comunidade para a saúde, combinada com a nova onda de ativismo, liderada pelas novas gerações, que se expressa nas redes sociais e em plataformas de conteúdo independente.
“Na nossa cultura, tão pautada pela conexão, o combate à solidão e a busca por comunidades reais tornam-se prioridades estratégicas. Ao mesmo tempo, o brasileiro exige que as marcas abandonem o discurso vazio por ações concretas. Neste ano, a relevância das empresas dependerá da capacidade de promover conexões humanas autênticas e de se posicionar com coragem diante das tensões sociais”, analisa.
5 – Novo fandom esportivo
O relatório aponta, ainda, que uma nova geração de fãs está impulsionando o universo esportivo, o que tem gerado como resposta novas parcerias entre marcas e diferentes modalidades. A força dessa troca representa uma certa democratização do esporte para novas audiências.
“O esporte deixou de ser um evento de 90 minutos para se tornar um ecossistema de entretenimento contínuo. As marcas precisam migrar do ‘logo no uniforme’ para a cocriação de narrativas que expandam o jogo”, alerta a estrategista.
Stella ressalta que o novo fã, especialmente a geração Z e as mulheres, consome o estilo de vida, os bastidores e as histórias humanas via redes sociais e documentários, exigindo que o patrocínio seja uma conversa cultural, não apenas uma exposição de marca.
No país, a transformação do fanatismo esportivo recaiu diretamente sobre as plataformas de streaming. Exemplos importantes citados pelo estudo são a Cazé TV, que obteve os direitos de transmissão integral da Copa do Mundo nas plataformas digitais, demonstrando uma das preferências pelo consumo de conteúdo esportivo em ambientes nativos digitais, com linguagem e dinâmica da internet. A TV Globo também reforçou sua estratégia online, impulsionando o Globoplay e lançando a GE TV no YouTube, buscando competir pela atenção desse público.
Navegar nessa transição envolve estabelecer parcerias e cocriação com criadores que entendem e detêm a confiança dessas comunidades digitais. Os anunciantes também podem focar em criar universos de storytelling em que o torcedor possa “habitar” a marca por meio de produtos exclusivos, experimentações imersivas e interações em tempo real.
“Nesse novo cenário, a integração autêntica acontece quando a marca deixa de ser uma patrocinadora para se tornar uma facilitadora da paixão e da identidade do fã”, arremata.
*Fonte: Meio&Mensagem

