A investigação conduzida pela Polícia Civil do Rio de Janeiro sobre o uso do Grok, inteligência artificial integrada à plataforma X, para a geração de imagens sexualizadas falsas sem consentimento, reacende um debate central para o ecossistema digital: até onde vai a autorregulação das plataformas diante da integração acelerada de IA generativa aos seus serviços.
O caso evidencia uma questão estrutural, que é a questão das ferramentas de IA cada vez mais poderosas incorporadas diretamente às plataformas de comunicação e redes sociais sem que mecanismos de contenção, governança e auditoria avancem na mesma velocidade.
O Grok opera dentro de uma rede social com milhões de usuários, alto grau de viralização e circulação contínua de imagens. Essa combinação, IA generativa mais plataforma social e escala, transforma riscos pontuais em problemas sistêmicos.
Não se trata de edição manual nem de deepfake tradicional, que exigia conhecimento técnico e tempo de produção. A IA generativa reduz drasticamente essas barreiras, permitindo que conteúdos sensíveis sejam criados em segundos, a partir de comandos simples. Quando esse tipo de tecnologia é disponibilizado em ambientes de grande alcance, o potencial de dano cresce exponencialmente.
Dados reforçam a tendência
O crescimento desse tipo de uso não é marginal. O Índice de Fraude 2025, relatório produzido pela Veriff, especializada em verificação de identidade e segurança na web, mostra que 78% dos consumidores brasileiros já foram vítimas de golpes viabilizados por IA e deepfakes, recursos que colaboram para o aumento dos ciberataques no país.
Esses números ajudam a contextualizar o debate de que não se trata de um desvio raro, mas de uma tendência recorrente, que ganha escala à medida que ferramentas generativas se tornam mais acessíveis e integradas às plataformas.
O episódio expõe as fragilidades do modelo de autorregulação que domina o setor digital. Plataformas continuam lançando recursos avançados de IA como diferenciais competitivos, muitas vezes apostando que ajustes posteriores, como políticas de uso ou canais de denúncia serão suficientes para conter abusos.
Na prática, porém, a experiência recente mostra que a moderação reativa não acompanha a velocidade da automação. Quando a tecnologia permite criar e disseminar conteúdo problemático em massa, a resposta baseada apenas em denúncias individuais tende a chegar tarde demais.
Isso levanta uma questão central para reguladores, operadores de infraestrutura digital e o próprio mercado: quem é responsável quando a arquitetura técnica facilita práticas ilícitas ou violações de direitos?
Responsabilidade compartilhada
O debate não se resolve atribuindo culpa à inteligência artificial em si. Tampouco pode recair exclusivamente sobre o usuário final. Ferramentas carregam decisões de design, limites técnicos e escolhas estratégicas feitas por quem as desenvolve e distribui.
O caso Grok deve acelerar discussões que já estavam no radar de autoridades e do setor de telecomunicações sobre a necessidade de governança técnica da IA, auditorias independentes, dever de cuidado proporcional ao risco e limites claros para a integração de modelos generativos em ambientes de comunicação de massa.
À medida que a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a atuar como camada estrutural das plataformas digitais, a autorregulação mostra seus limites. Sistemas que operam em escala exigem regras, transparência e responsabilidade compatíveis com o impacto que produzem.
Alessandra Montini – diretora do LabData e da FIA

*Fonte: tele.sintese

