Da esq. para a dir.: Wilson Welisch, Samir Nobre, Carlos Neiva, Kim Mota, Gunnar Bedicks, Cristiano Flôres. Foto: Tele.Síntese/Reprodução
Abert, Abratel e Astral defendem implantação rápida da TV 3.0, financiamento para afiliadas, atenção à TV pública, uso do espectro e evolução da radiodifusão para smartphones e novos serviços
As associações de radiodifusão usaram painel da SET em Brasília, na manhã desta quarta, 18, para sinalizar que o setor vê a TV 3.0 como uma agenda de implementação imediata, mas também como uma disputa de relevância econômica, regulatória e tecnológica. Em falas que combinaram defesa institucional e preocupação prática, representantes da Abert, da Abratel e da Astral abordaram desde financiamento e kits de recepção até uso do espectro, mobilidade, TV pública e novos modelos de negócio.
Pelo lado da Abert, Cristiano Flôres afirmou que a entidade vem tentando apresentar a radiodifusão como indústria nacional, conceito que, segundo ele, é central para enquadrar o setor em políticas públicas. A estratégia aparece tanto na agenda da Nova Indústria Brasil quanto em debates legislativos, como o projeto do streaming e as discussões sobre inteligência artificial.
No caso da TV 3.0, Flôres disse que a agenda do setor envolve inovação, sustentabilidade do jornalismo e condições de competição com as plataformas digitais. Segundo ele:
“A radiodifusão quer usar a nova tecnologia para se conectar de forma mais personalizada com as pessoas, sem abandonar seus diferenciais históricos, como o conteúdo local, o jornalismo profissional, o entretenimento e a cobertura ao vivo.”
Kits, financiamento e consulta pública
Ao tratar da implementação da TV 3.0, o diretor-geral da Abert listou como centrais os debates sobre requisitos técnicos, portaria de consignação, portaria de canais virtuais, financiamento e eventual distribuição de kits de recepção para a população de menor renda.
Segundo ele, a entidade considerou importante que a consulta pública sobre o arranjo de faixa e canalização avançasse sem prorrogação, para que o ato final saia em tempo de permitir o planejamento das emissoras. Flôres também relatou que:
“A Abert teve que contratar consultoria para ajudar na apresentação de dados do setor ao BID e ao Banco Mundial, justamente porque a radiodifusão ainda carece de estatísticas estruturadas sobre impacto econômico, empregos diretos, indiretos e induzidos.”
Na visão da entidade, essa produção de dados será necessária para sustentar políticas públicas e linhas de crédito.
Abratel fala em “não inventar a roda”
Samir Nobre, diretor-geral da Abratel, adotou um tom mais voltado à implementação prática. Segundo ele, o arcabouço da TV 3.0 está “praticamente preparado”, com decretos publicados e regras construídas em diálogo com o setor. Para a entidade, o foco agora deve ser executar o projeto sem excessos regulatórios.
Ele defendeu que o país aproveite a experiência da migração da TV digital e “não invente a roda”. Na leitura da Abratel, se o processo repetir o que foi feito na primeira transição tecnológica, o Brasil poderá voltar a ser referência e exportar esse modelo para outros mercados.
Nobre insistiu que a TV 3.0 não pode virar uma tecnologia restrita a grandes redes e capitais. Por isso, considerou fundamental que o financiamento alcance também afiliadas e emissoras regionais, que não dispõem da mesma capacidade financeira das cabeças de rede. Ao mesmo tempo, argumentou que:
“A TV 3.0 cria oportunidade para combinar a força tradicional da comunicação de massa com recursos mais próximos da mídia de performance, ampliando a capacidade de personalização de conteúdo e publicidade.”
Mobilidade, 5G Broadcast e DataCast
Nobre citou ainda os testes de 5G Broadcast realizados em Curitiba e afirmou ver nesse movimento um novo caminho para o setor, ao permitir que a TV aberta e gratuita chegue aos smartphones. Segundo ele:
“Isso pode levar jornalismo profissional, esporte e outros conteúdos da radiodifusão à palma da mão do usuário, sem depender integralmente do modelo tradicional de recepção domiciliar.”
O executivo também mencionou o DataCast como caminho para novos negócios. Na visão da Abratel, a infraestrutura da radiodifusão pode prestar serviços tecnológicos além da transmissão audiovisual, inclusive em aplicações para cidades inteligentes. Ele citou como exemplo a possibilidade de integração com semáforos e ônibus em Brasília, aproveitando a cobertura já existente das emissoras para geração de novos serviços e receitas.
Astral destaca TV pública, plataforma comum e Brasil profundo
Pela Astral, Carlos Eduardo Neiva Melo chamou atenção para um ponto distinto: a importância da TV 2.0 e da expansão da TV pública no interior do país durante a transição. Segundo ele:
“O parque existente de receptores e transmissores da atual geração continuará relevante por vários anos e não pode ser desconsiderado enquanto a TV 3.0 amadurece.”
Neiva apontou o programa Brasil Digital como política pública importante para levar comunicação pública a cidades de médio porte e ao chamado “Brasil profundo”, em articulação com a Rede Nacional de Comunicação Pública, a Rede Legislativa e a EAD (Seja Digital).
Sobre a nova geração, lembrou da expectativa de agregar Executivo, Legislativo e Judiciário em uma estrutura de comunicação pública com serviços de governo digital, personalização e recomendação de conteúdos diretamente na TV.
*Fonte: Tele.Síntese

