ARTIGO – 2026 e a infraestrutura digital: menos tendências, mais fatos

Imagem: Gemini IA

Em sua coluna mensal, Victor Arnaud, comenta como a demanda por IA distribuída, restrições energéticas e soberania de dados redefinem decisões de investimento em infraestrutura no Brasil

O debate sobre o futuro da infraestrutura digital costuma começar por tendências. Elas organizam narrativas e geram engajamento, mas raramente orientam decisões estruturais, aquelas que envolvem investimentos de longo prazo, risco regulatório e impactos sistêmicos.

Mais relevante do que mapear tendências é observar movimentos estruturais já em curso. Movimentos que independem de opinião e que estão moldando decisões de empresas, governos e operadores de infraestrutura.

Um desses movimentos é a transformação da demanda por inteligência artificial. Ela não está apenas crescendo, está mudando de forma. O setor começa a sair de um modelo concentrado em grandes treinamentos centralizados para um cenário mais distribuído, com inferência próxima do usuário, ajustes contínuos de modelos e exigências crescentes de baixa latência e soberania de dados. Isso altera o desenho da infraestrutura. A discussão deixa de ser apenas volume de processamento e passa a envolver localização, arquitetura e integração com ecossistemas locais.

Outro vetor determinante é a energia. Se antes a localização física era o maior diferencial competitivo, hoje são disponibilidade, previsibilidade, custo e origem da energia que definem a viabilidade de novos projetos. Em diversos mercados globais, o limitador já não é demanda, mas capacidade de conexão à rede, disponibilidade firme de energia e prazos de expansão da infraestrutura elétrica. Energia tornou-se o verdadeiro real state da infraestrutura digital. Sem planejamento energético de longo prazo, não há escala possível.

A própria arquitetura digital também está sendo redesenhada. Modelos globais e totalmente centralizados já não atendem às exigências atuais. Latência, resiliência, continuidade operacional e regulação impulsionam arquiteturas mais locais, distribuídas e adaptadas a cada jurisdição. Trata-se menos de ideologia e mais de pragmatismo operacional.

Esse contexto ganha dimensão adicional em um mundo no qual cadeias tecnológicas estão sendo reorganizadas por tensões geopolíticas. Infraestrutura digital passou a integrar estratégias de soberania e competitividade nacional. Para países com grande mercado interno, matriz energética relevante e potencial de expansão, como o Brasil, o diferencial não está apenas na escala, mas na capacidade de coordenar política energética, agenda digital e estabilidade institucional. Clareza regulatória e previsibilidade atraem capital de longo prazo. Ambiguidade e volatilidade normativa elevam o prêmio de risco e deslocam investimentos antes mesmo da decisão final.

Há ainda um desafio estrutural menos visível, pessoas. A complexidade da infraestrutura avança mais rápido do que a formação de talentos. Data centers deixaram de ser apenas obras de engenharia física e se tornaram plataformas tecnológicas complexas, exigindo competências combinadas em energia, automação, software, segurança e sustentabilidade. Sem estratégia consistente de formação e atração de talentos, a política industrial digital se fragiliza.

Por fim, sustentabilidade deixou de ser discurso reputacional e passou a ser condição básica de operação. Projetos que não demonstram eficiência real, gestão responsável de recursos e integração com o entorno enfrentam barreiras regulatórias, sociais e financeiras crescentes. Na prática, sustentabilidade passou a significar licença para operar e crescer.

Esses não são cenários hipotéticos. São forças estruturais já reorganizando decisões de investimento, políticas públicas e estratégias de expansão.

Para o Brasil, o momento pode representar uma janela histórica. Em um cenário de reorganização geopolítica, reconfiguração de cadeias tecnológicas e busca global por energia competitiva e sustentável, poucos países combinam mercado interno relevante, matriz energética predominantemente renovável e capacidade de expansão como o Brasil. O desafio não está na ausência de ativos, mas na capacidade de coordenação e estabilidade institucional para convertê-los em projetos concretos.

Transformar infraestrutura digital em vantagem sistêmica exige coordenação entre política energética, agenda digital, formação de talentos e estabilidade regulatória. Exige tratar data centers, conectividade e capacidade computacional como elementos centrais de política industrial contemporânea e não apenas como ativos setoriais.

Janelas históricas não permanecem abertas indefinidamente. O capital global é móvel, a tecnologia evolui rápido e a competitividade é definida por decisões tomadas no presente.

Na infraestrutura digital, o futuro não pune quem erra previsões. Ele pune quem demora a construir as condições estruturais para competir.

Victor Arnaud – Presidente da Equinix no Brasil

*Fonte: Tele.Síntese

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