Empresas alinham estratégias de transformação digital do jornalismo diante de impactos da IA, grandes plataformas e criadores

Imagem: Getty Images/iStockphoto

O cenário para o jornalismo como instituição é visto com maior cautela, modelos tradicionais perdem força, enquanto novas formas de distribuição, consumo e monetização ainda estão em consolidação.

O jornalismo digital entra em 2026 em meio a uma transição profunda, marcada pelo avanço acelerado da inteligência artificial generativa, pela mudança nos hábitos de consumo de informação e pelo fortalecimento do ecossistema de criadores. É o que mostra o estudo Journalism and Technology Trends and Predictions 2026, assinado por Nic Newman, pesquisador sênior do Reuters Institute, com base em uma pesquisa realizada com 280 executivos de mídia de 51 países.

Segundo o relatório, embora muitos líderes mantenham confiança na sustentabilidade de seus próprios negócios, o cenário para o jornalismo como instituição é visto com maior cautela. Modelos tradicionais perdem força, enquanto novas formas de distribuição, consumo e monetização ainda estão em consolidação.

Metodologia e contexto da pesquisa
A pesquisa foi realizada entre novembro e dezembro de 2025, por meio de um questionário fechado aplicado online. Os participantes ocupam cargos estratégicos, como editores-chefes, CEOs, diretores de produto e líderes de inovação, em empresas de mídia tradicionais, nativas digitais e de radiodifusão.

Os resultados não podem ser extrapolados para representar o setor como um todo, mas oferecem a visão de um grupo seleto de tomadores de decisão sobre tendências estratégicas e tecnológicas que devem moldar o jornalismo no curto prazo.

Principais conclusões do estudo
De acordo com os executivos entrevistados, os desafios e prioridades para 2026 podem ser resumidos nos seguintes pontos:

  • Queda da confiança dos executivos no segmento de jornalismo: apenas um pouco mais de um terço (38%) dos entrevistados afirmaram estar confiantes nas perspectivas do jornalismo no próximo ano, uma queda de 22 pontos percentuais em relação a quatro anos atrás. Entre os fatores de preocupação citados estão ataques políticos à imprensa, redução de financiamentos internacionais (como recursos da USAID que eram dirigidos a canais independentes de mídia) e a queda contínua de tráfego em muitos sites de notícias.
  • Confiança no próprio negócio se mantém: em contraste, cerca de metade (53%) dos entrevistados afirmaram estar confiantes em relação às perspectivas dos próprios negócios, um índice semelhante ao do ano passado. Editoras com assinaturas posicionadas em segmentos premium, com forte tráfego direto, conseguem enxergar um caminho para a rentabilidade a longo prazo, enquanto aquelas que ainda dependem de publicidade e do impresso demonstram preocupação com quedas acentuadas de receita e com o impacto potencial das buscas impulsionadas por IA nos resultados financeiros.
  • Queda estrutural do tráfego em sites jornalísticos: os editores esperam que o tráfego proveniente dos mecanismos de busca caia mais de 40% nos próximos três anos — não exatamente um cenário de “Google Zero”, mas ainda assim um impacto substancial. Dados citados no relatório indicam que o tráfego agregado de centenas de sites jornalísticos oriundo das buscas no Google já começou a recuar, com editores que dependem de conteúdo de lifestyle relatando terem sido particularmente afetados pela implementação da AI Overview do Google. Isso ocorre após quedas expressivas no tráfego de referência para sites de notícias vindos do Facebook (-43%) e do X (-46%) nos últimos três anos.
  • Redefinição das prioridades editoriais: para se diferenciar de conteúdos automatizados, os publishers planejam investir mais em jornalismo investigativo, reportagens de campo, análises e explicações contextuais e histórias humanas. Em contrapartida, planejam reduzir o foco em jornalismo de serviços, matérias atemporais e notícias gerais, vistas como mais suscetíveis à comoditização por chatbots de IA.
  • Aposta maior em vídeo e áudio: os editores acreditam também que será importante investir mais em vídeo, incluindo a presença em abas e seções específicas (watch tabs) dentro das plataformas digitais. Além disto, os formatos de áudio, como os podcasts, deverão receber maior atenção. Por outro lado, embora o texto continue sendo relevante, ele deverá ter menor prioridade em termos de expansão de volume.
  • Mudanças nas estratégias de distribuição: no que diz respeito às estratégias de distribuição em plataformas que não são próprias do veículo, o YouTube apareceu como o principal foco dos editores para este ano e uma das que mais cresceu em interesse em relação ao ano anterior. Outras plataformas centradas em vídeo como TikTok e Instagram também foram mencionadas como prioridade. Em paralelo, cresce a atenção às plataformas de IA conversacional como ChatGPT, Gemini e Perplexity, buscando aprender a operar, se adaptar e tomar decisões estratégicas neste novo ecossistema. Em contrapartida, há uma redução deliberada de esforços em SEO tradicional do Google e em redes sociais como Facebook e X.
  • Impactos da IA agêntica: tecnologias capazes de operar de forma autônoma são vistas como altamente disruptivas. Três em cada quatro executivos acreditam que essas ferramentas terão impacto grande ou muito grande no setor em breve. Segundo o relatório, os impactos concretos da IA agêntica no mundo real já devem começar a ser vistos neste ano e projeta que “haverá mais bots do que pessoas acessando sites de editores”, à medida que ferramentas como Huxe e Pulse (da OpenAI) passam a oferecer briefings de notícias personalizados em escala.
  • Oportunidades de licenciamento de conteúdo para plataformas de IA: Parte dos publishers (20%), sobretudo os de perfil mais premium, vê oportunidades de gerar novas e substanciais receitas por meio do licenciamento de conteúdo (ou da participação na receita publicitária) dentro de chatbots. No extremo oposto, outra parte dos publishers (20%), formada majoritariamente por editores locais, radiodifusores públicos ou organizações de países menores, diz não esperar nenhum tipo de receita proveniente de acordos com IA.
  • Assinaturas continuam sendo a prioridade comercial: assinaturas e programas de membership continuam sendo o principal foco de receita dos editores (76%), à frente tanto da publicidade display (68%) quanto da publicidade nativa (64%). Eventos online e presenciais (54%) também vêm ganhando importância como parte de uma estratégia de receitas mais diversificada.
  • Expansão do uso de inteligência artificial: O uso de tecnologias de IA pelas organizações de notícias continua a crescer em todas as categorias, com a automação de back-end sendo considerada “importante” neste ano pela ampla maioria (97%) dos editores entrevistados, muitos dos quais integraram sistemas piloto aos seus sistemas de gerenciamento de conteúdo no último ano. Os casos de uso em apuração jornalística (82%) passaram a ocupar a segunda posição em importância, enquanto codificação mais rápida e desenvolvimento de produtos (81%) também vêm ganhando tração. Mais de quatro em cada dez (44%) participantes da pesquisa afirmam que as iniciativas de IA em suas redações estão apresentando resultados “promissores”, mas uma proporção semelhante (42%) as descreve como “limitadas”.
  • Concorrência crescente com criadores e influenciadores: a ascensão de criadores de notícias e influenciadores preocupa os editores de duas maneiras. Mais de dois terços (70%) dos respondentes demonstram preocupação com o fato de que eles estão desviando tempo e atenção do público do conteúdo produzido pelos veículos. Além disso, quatro em cada dez (39%) temem perder talentos editoriais de ponta para o ecossistema de criadores, que oferece maior autonomia e, potencialmente, retornos financeiros mais elevados.
  • Aprendendo com criadores e firmando parcerias: em resposta ao aumento da concorrência e à transferência de confiança para personalidades individuais, três quartos (76%) dos editores entrevistados afirmaram que buscarão estimular suas equipes a agirem de forma semelhante à dos criadores. Ao mesmo tempo, metade (50%) disse que pretende firmar parcerias com criadores para ajudar na distribuição de conteúdo, enquanto cerca de um terço (31%) afirmou que vai contratar criadores, por exemplo, para gerenciar contas de redes sociais. Outros 28% planejam criar estúdios de criadores e viabilizar joint ventures.

Tecnologia, confiança e relevância editorial
Na avaliação final, o estudo aponta que o setor pode encolher em termos de atenção e recursos, mas tende a se fortalecer onde houver clareza de propósito, proposta de valor bem definida e capacidade de adaptação. Para Newman, organizações mais integradas, com identidade clara e abertura à mudança, estarão mais bem posicionadas para enfrentar um cenário em que tecnologia, confiança e relevância editorial se tornam fatores decisivos.

O relatório completo com o estudo do Reuters Institute pode ser baixado aqui.

Fonte: ZyDigital

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