TV 3.0 e a Copa: expectativas e a complexa realidade de um salto tecnológico

Imagem: Anatel/Reprodução

A Copa do Mundo de 2026 deixa uma marca indiscutível na TV brasileira: ela marcou o momento em que a internet (por meio da dobradinha YouTube/Cazé TV) demonstrou a capacidade de entregar um evento de massa, ao vivo, em 4K, para dezenas de milhões de espectadores sem nenhuma intercorrência técnica relevante. Ou seja, mostrou que a internet pode rivalizar, em capacidade de entrega, com a radiodifusão. Sobre este aspecto, ainda há muitas dúvidas e debate sobre a viabilidade econômica do modelo, dos investimentos feitos pelo Google, sobre as métricas que podem ser comparadas e sobre as questões regulatórias envolvidas. Mas, como fenômeno tecnológico, um capítulo da história das comunicações foi escrito.

Ao mesmo tempo, havia uma outra expectativa para esta Copa: seria o marco de estreia da TV 3.0, tecnologia que promete fazer justamente o movimento contrário, ou seja, dar à TV aberta capacidades de interação e segmentação típicas da Internet. Essa segunda expectativa se frustrou em grande medida. Não porque a tecnologia seja ruim, mas pela combinação de uma grande quantidade de variáveis que não se combinaram como deveria para o sucesso esperado.

Essa realidade, de certa maneira, antecipa os desafios que a TV 3.0 terá nos próximos anos para se tornar uma tecnologia de massa. Nos últimos dias, esta reportagem conversou com diferentes atores para entender as causas desta frustração de expectativa.

Desde o ano passado, o setor de radiodifusão e o governo trabalhavam com a ideia de que a Copa de 2026 seria o grande evento inaugural da TV 3.0, tanto do ponto de vista tecnológico, comercial quanto político. E tudo caminhava bem neste sentido até o primeiro trimestre do ano. Os principais marcos regulatórios foram alcançados, o padrão foi definido, a tecnologia ganhou corpo e se mostrou inovadora.

Havia até mesmo a expectativa de uma solenidade com o presidente da República para anunciar não apenas a tecnologia, mas linhas de financiamento e uma política de aquisição de kits de recepção para a população de baixa renda, bem como a apresentação de aplicativos de serviços públicos disponíveis na nova tecnologia. Ao invés disso, o novo padrão foi lançado pelo Ministério das Comunicações de forma discreta no dia 11 de junho.

Obviamente ninguém esperava ver a TV 3.0 na casa de todos os brasileiros durante a Copa, mas haveria uma história a ser contada, uma novidade que movimentaria reportagens, eventos para patrocinadores e poderia, potencialmente, gerar um boca a boca, impulsionando as vendas de televisores no segundo semestre. O que deu errado? 

Política pública e receio do governo
A festa política não aconteceu basicamente porque o governo ficou receoso. Primeiro, as restrições do período eleitoral afastam qualquer possibilidade de políticas públicas novas no segundo semestre, ainda mais algo que envolva benefícios diretos aos eleitores, como distribuir equipamentos de recepção para a população de baixa renda.

Nota-se que esta eleição ativou no governo um cuidado redobrado com as regras eleitorais, o que tem forçado diferentes órgãos públicos a suspenderem qualquer tipo de divulgação ou promoção. A festa da TV 3.0 estava prevista para 9 de junho, antes do chamado “período de defeso”, mas a implementação das políticas aconteceria em um momento complicado juridicamente. 

A ideia original, antecipada por este noticiário no começo do ano, era aprovar a destinação de cerca de R$ 1,2 bilhão de eventuais sobras para a implementação de políticas definidas no leilão de 5G de 2021 (essencialmente infovias subfluviais do Norte Conectado e a implementação de redes privativas governamentais) para políticas de compra de cerca de 1 milhão de receptores de TV 3.0 para a população de baixa renda, o que não apenas criaria uma massa de audiência como daria escala aos fabricantes, reduzindo os custos industriais. Mas a análise jurídica do governo viu riscos eleitorais relevantes, e o projeto ainda precisaria passar por um processo de discussão na Anatel, inclusive com questionamentos sobre a oportunidade destes investimentos em detrimento de outros projetos na área de conectividade e infraestrutura digital também relevantes.

Divergência entre radiodifusores
Mas um fator determinante e que preocupou o Palácio do Planalto, impedindo de vez uma solenidade de impacto para o lançamento da TV 3.0, foi o medo de lançar uma tecnologia para a qual a única emissora que efetivamente estaria pronta para tirar proveito pleno era a Globo, ainda que a Record também estivesse empenhada em ao menos cumprir o cronograma apertado de ativar seus transmissores em São Paulo, Rio e Brasília.

O alerta de que a TV 3.0 não era uma realidade setorial foi feito à presidência da República pelo SBT, gerando um grande desconforto entre as emissoras (afinal, as associações setoriais vinham trabalhando em coordenação). Além disso, o episódio também acabou revelando ao governo interesses conflitantes entre os diferentes grupos de mídia sobre os rumos da nova tecnologia. Não em relação à importância e necessidade da TV 3.0 para o futuro da radiodifusão, mas em relação ao ritmo viável de implementação e pré-requisitos para que ela possa acontecer.

O SBT, por exemplo, mesmo recuando em um segundo momento e tentando reverter o dano, acabou sinalizando a Lula que acha muito mais importante assegurar antes boas condições de financiamento para as emissoras e a proeminência dos canais abertos na TV conectada hoje, no padrão de TV digital atual, do que colocar esforços e dinheiro em uma tecnologia que levará 10 anos para estar massificada. O governo, então, tirou o pé do acelerador.

Tecnologia ainda cara e imatura
Outro problema foi em relação aos custos dos equipamentos de recepção. Com a explosão do valor das memórias a partir de outubro, por conta da corrida provocada pela Inteligência Artificial, os equipamentos tiveram um encarecimento significativo, e seria inviável lançar uma grande quantidade de kits de recepção no mercado a um preço razoável sem pesados subsídios. Resultado: apenas pouco mais de 5 mil receptores, subsidiados, foram colocados no varejo.

Além disso, estes receptores de TV 3.0 que foram vendidos mostraram que a tecnologia ainda tem problemas técnicos a serem endereçados, decorrentes possivelmente da falta de testes prévios em diferentes integrações e tempo de desenvolvimento do software. Os poucos equipamentos que chegaram ao varejo não entregaram a performance esperada.

Além de questões de lentidão e travamento do software, o principal problema estava na antena de recepção interna. A especificação ideal da TV 3.0 prevê que a antena ficará escondida dentro do televisor e/ou receptor, sem necessitar de um equipamento adicional (uma antena amplificada), proporcionando uma recepção indoor perfeita. Isso não aconteceu. Este noticiário testou, por exemplo, o sistema dentro do Ministério das Comunicações, e as falhas de recepção foram recorrentes.

Parte desse problema se deve ao fato de os grandes fabricantes de televisor ainda estarem distantes do desenvolvimento massivo da tecnologia de TV 3.0. A razão para isso passa por uma expectativa de prazos: estes grandes fabricantes, como Samsung, LG, TCL, entre outros, querem um escalonamento lento e gradual da cota de televisores com TV 3.0 embarcada, por conta dos custos envolvidos e mudanças nos processos produtivos. Os radiodifusores querem acelerar estes prazos para que as telas com TV 3.0 cheguem rapidamente ao consumidor (no Brasil, compra-se cerca de 11 milhões de novas TVs por ano).

Vale lembrar que os fabricantes de televisores são, justamente, os grandes especialistas no desenvolvimento de antenas de recepção, porque lidam com esse desafio cotidianamente nos seus laboratórios de desenvolvimento de smartphones. Esse know-how é considerado essencial para que as antenas de recepção internas da TV 3.0 (que usam a tecnologia MIMO, similar à dos celulares) sejam menores e mais eficientes.

O conteúdo
Outro desafio que precisava ser vencido para que a TV 3.0 pudesse ter feito a sua grande estreia na Copa do Mundo era o do conteúdo. Além das transmissões 4K, a TV 3.0 precisaria mostrar de maneira efetiva e relevante a integração com a internet na transmissão de diferentes ângulos de câmera, por exemplo, ou publicidade segmentada. Além disso, havia a expectativa de serviços públicos integrados às TVs conectadas e aplicações interativas, mas, com as dificuldades técnicas e operacionais em outras frentes, o desenvolvimento dos conteúdos acabou ficando em segundo plano. Houve demonstrações, mas com conteúdo limitado.

O fato de tantas etapas necessárias para um lançamento exitoso da TV 3.0 não terem se alinhado da maneira esperada acabou gerando uma frustração de expectativas entre aqueles que acreditavam que esse seria um bom contraponto ao êxito das transmissões da Copa pela Internet, mas nem de longe significa o fracasso da evolução da tecnologia de radiodifusão.

Ao contrário, há quem aposte que o fato de a TV 3.0 não ter feito o barulho que se esperava nessa Copa foi positivo, para dar mais tempo a um desenvolvimento seguro da tecnologia, dos conteúdos, alinhamento de custos e processos produtivos e definição das políticas públicas. Foi também um episódio pedagógico para mostrar que a radiodifusão é um ecossistema muito complexo, e por isso os saltos tecnológicos costumam ser lentos. A TV 2.0, por exemplo, começou a ser apresentada ao público no final dos anos de 1990, teve o seu marco de lançamento “político” (curiosamente com a presença do presidente Lula) no final de 2007, mas só ganhou uma Copa do Mundo totalmente transmitida em HD em 2010. E só no ano passado a TV analógica foi completamente desligada.

Por outro lado, a avaliação de especialistas ouvidos por este noticiário é a de que o sucesso das transmissões ao vivo da Copa de 2026 por meio da internet (notadamente o YouTube) aumenta a pressão para que a radiodifusão responda rápido com um diferencial tecnológico.

*Fonte: Tela Viva