ARTIGO: A IA pode produzir vozes. Mas confiança não se sintetiza tão facilmente.

Na sexta-feira, 14 de agosto, em Búzios, participei do encontro do MidiaCom Rio. Foi um dia importante para a Fundação Roberto Marinho e para o Canal Futura: assinamos um acordo de cooperação para liberar conteúdos do Futura para exibição em emissoras de rádio e TV do Estado do Rio de Janeiro.

Mas saí do encontro com uma inquietação maior.

As conversas sobre rádio 3.0, rádio híbrido, inteligência artificial, mensuração de audiência, engenharia digital e novos modelos de distribuição me lembraram que toda grande mudança tecnológica costuma chegar acompanhada de uma promessa: a de que, agora sim, tudo será diferente.

Em parte, será.

O rádio já não cabe apenas no aparelho de rádio. Está no carro conectado, no aplicativo, na Alexa, no streaming, no site, nas redes sociais, no dashboard do veículo, nas plataformas híbridas que alternam sinal terrestre e internet. Como foi dito no encontro, não estamos simplesmente “digitalizando o FM”; estamos digitalizando a experiência do rádio.

Essa diferença importa.

Porque o que está em jogo não é apenas a substituição de uma tecnologia por outra. É a reorganização de uma relação: entre emissoras e ouvintes, entre conteúdo e território, entre presença local e escala digital, entre confiança e fragmentação.

O rádio segue sendo um meio de enorme força social. Foram apresentados dados sobre alcance, credibilidade, retorno para anunciantes e tempo médio de escuta. Também se discutiu algo que, para mim, é central:

Em um mundo tomado por conteúdo sintético, desinformação e excesso de estímulos, a presença humana pode voltar a ser um ativo estratégico. A campanha “Guaranteed Human”, citada no encontro, traduz bem essa intuição: talvez, em certos momentos, a maior inovação seja poder dizer que há uma pessoa real ali.

Ao mesmo tempo, seria ingênuo tratar a inteligência artificial apenas como ameaça.

As demonstrações sobre criação de roteiros, vozes sintéticas, limpeza de áudio, produção musical, versionamento de spots e publicidade personalizada mostram que estamos diante de ferramentas muito poderosas. Elas já são capazes de alterar custos, tempos de produção, formatos narrativos, relações comerciais e possibilidades de distribuição.

A pergunta, portanto, não é se a IA chegará ao rádio. Ela já chegou.

A pergunta é outra: quem define o sentido do seu uso?

Essa pergunta me acompanha há muito tempo. Em texto de 2019 sobre tendências no uso de tecnologias digitais para a educação, eu já organizava a discussão a partir da relação entre educação, comunicação e tecnologias, tendo como horizonte a educação pública de qualidade, o engajamento das juventudes e o desejo de aprender por toda a vida.

Continuo achando que esse é o ponto. A tecnologia nunca deveria ser o começo da conversa. Ela deveria entrar depois da pergunta sobre o que queremos produzir como experiência humana, social, educativa e cultural.

No caso da Fundação Roberto Marinho e do Futura, isso é ainda mais importante.

O Futura nasceu como uma experiência de comunicação educativa em escala nacional. Hoje, ao firmar um acordo com o MidiaCom Rio para circulação de seus conteúdos em emissoras fluminenses, ele se reposiciona também como plataforma pública de cooperação com a mídia regional. Não se trata apenas de distribuir vídeos ou programas. Trata-se de reconhecer que rádios e TVs locais continuam sendo infraestruturas de confiança, pertencimento e acesso.

A pesquisa apresentada pela Quaest Pesquisa no encontro reforçou esse ponto: TV aberta e rádio continuam muito presentes no cotidiano dos fluminenses, com capilaridade, gratuidade e credibilidade. A mídia foi apresentada como vetor de desenvolvimento econômico, social e simbólico do Estado.

Há aí uma oportunidade relevante.

Em vez de opor mídia tradicional e mundo digital, podemos pensar em uma ecologia mais inteligente de comunicação pública. Uma ecologia em que o conteúdo educativo produzido por uma instituição como o Futura possa circular por emissoras locais, alcançar novos públicos, dialogar com territórios, fortalecer repertórios e, ao mesmo tempo, aprender com as novas formas de distribuição, mensuração e relacionamento.

Mas essa oportunidade exige método.

Uma das falas do encontro foi muito precisa ao dizer que engenharia não é custo. No novo ambiente da comunicação, engenharia é condição de presença, continuidade, mensuração e sustentabilidade. Estar no ar, no streaming, no aplicativo, na Alexa ou no rádio híbrido exige redundância, metadados, governança, monitoramento e capacidade de resposta.

Isso vale também para o campo social.

Não basta ter uma boa causa. Não basta ter bom conteúdo. Não basta ter reputação. É preciso garantir que o conteúdo chegue, que seja encontrado, que seja reconhecido, que possa ser usado, medido, redistribuído e contextualizado.

No fundo, a transformação tecnológica nos obriga a voltar a uma pergunta antiga: para quem estamos comunicando e com que compromisso?

A IA pode produzir vozes. Mas confiança não se sintetiza tão facilmente.

A tecnologia pode distribuir conteúdos. Mas pertencimento depende de vínculo.

Os algoritmos podem personalizar mensagens. Mas o interesse público exige critérios que não podem ser reduzidos à maximização da atenção.

Talvez este seja o desafio das empresas de radiocomunicação, das instituições públicas, das fundações e dos produtores de conteúdo educativo: atravessar a mudança tecnológica sem perder a responsabilidade cultural, social e humana da comunicação.

O futuro da mídia não será apenas mais digital.

Será mais disputado.

E, justamente por isso, precisará ser mais consciente, mais ético, mais territorial e mais humano.

João Alegria – Secretário-Geral da Fundação Roberto Marinho.