Os caminhos para aliar a IA ao jornalismo, segundo a ANJ

Imagem: Blackday/Adobestock

No início de junho, A.G. Sulzberger, editor do The New York Times, abordou a relação entre gigantes de tecnologia, inteligência artificial (IA) e o jornalismo especializado, em discurso realizado no Congresso Mundial de Mídia da WAN-IFRA em Marselha, na França.

Há certo desconforto, em todo o mundo, com a postura adotada pelas big techs e desenvolvedoras de IA, de maneira geral, para o treinamento de ferramentas generativas com base em conteúdos produzidos por veículos de imprensa, sem que haja consentimento ou pagamento pelo material.

O ponto central das críticas de Sulzberger foi a falta de compromisso dessas empresas na garantia do acesso a informações de confiança e dos direitos da imprensa mundial, para que o jornalismo sobreviva à era da sofisticação tecnológica.

“Esse sequestro da esfera pública é viabilizado pelo pecado original que move seus produtos de IA — um roubo descarado de propriedade intelectual em uma escala sem precedentes. Os gigantes da tecnologia vasculham sites de notícias sem permissão e sem compensação. Reempacotam o material roubado como se fosse seu, desviando o público e a receita que deveriam ir para as organizações jornalísticas que criaram esse trabalho. E isso não acontece apenas uma vez, durante o processo de treinamento, mas incontáveis vezes, todos os dias”, afirmou o editor.

Marcelo Rech, jornalista e presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), esteve presente e acompanhou o pronunciamento ao vivo:

“A fala reproduz e sintetiza um sentimento unânime, praticamente, entre os publishers do mundo todo”, diz.

Ao Meio & Mensagem, Rech desenha quatro tendências capazes de guiar a convivência da tecnologia com os meios de comunicação:

Tecnológica

“A maneira talvez mais abrangente, mais eficaz, em médio prazo, vai ser uma barreira tecnológica. Não para impedir, mas para controlar esse acesso”, comenta o presidente-executivo da ANJ.

Entidades do setor, nos últimos anos, encararam tentativas frustradas de impedir que os robôs operados pelas big techs e empresas parceiras acessassem o conteúdo jornalístico dos veículos. Os mecanismos chegam, inclusive, a se mimetizar como humanos para viabilizar a liberação do acesso.

Existem conversas, segundo Rech, para cobrar pelo acesso, inclusive das máquinas, mas a padronização da mensuração ainda é um desafio. Recentemente, a ANJ aderiu à SPUR Coalition, aliança que nasceu da mobilização de veículos do Reino Unido, — como Financial Times, The Guardian e BBC —, para contribuir para o estabelecimento de modelos que mensurem e controlem os acessos.

Outra opção, pontua, é a criação de um modelo similar aos desenvolvidos no mercado da música, partindo da negociação junto a produtores e gravadores, moralizando um mercado antes tomado pela pirataria.

Negocial
O Brasil tem assistido a uma crescente de acordos entre publishers e empresas de tecnologia, movimento já visto no mercado editorial internacional nos últimos anos. Caso do Google firmando parceria com o Estadão e Folha de S. Paulo, e os recentes anúncios do UOL e Folha fechando acordo com a OpenAI.

“Defendemos o caminho que é o reconhecimento do valor do trabalho jornalístico e pagamento desse conteúdo, contanto que seja um valor respeitável e justo pela relevância”, afirma Rech.

De forma geral, as parcerias não contemplam os acervos das publicações, dada a dificuldade de precificação.

O presidente-executivo diz, contudo, que os acordos ainda são muito limitados e restritos, o que dificulta uma solução mais definitiva e abrangente para o jornalismo mundial no longo prazo.

“A negociação nunca é rápida e padronizada, porque cada negociação exige uma série de considerações particulares”, acrescenta.

Hoje, comenta-se que as principais reivindicações dos veículos no país são o respeito ao conteúdo produzido e que os atuais acordos com plataformas sejam contemplados.

Judicial
Outra tendência é a pressão legal sobre as big techs. Em 2023, o The New York Times processou a OpenAI e a Microsoft pela violação de direitos autorais. O veículo também processa a Perplexity. Em junho, editoras norte-americanas que possuem e operam quase 400 títulos nos Estados Unidos fizeram o mesmo.

“Nós queremos conversar com as autoridades, queremos chegar a um acordo, alguns princípios elementares de uso de controle”, defende Rech.

Ele compartilha que as empresas, no Brasil, têm aberto espaço de maneira individual, majoritariamente.

Regulatório
O quarto caminho possível, aponta, são as regulamentações governamentais que abranjam o tema.

A União Europeia implementou em 2024 o AI Act, documento que estabelece diretrizes para a tecnologia no bloco. A aplicação é progressiva, e a expectativa é de que os principais marcos já estejam totalmente aplicados até agosto de 2028.

Em 2021, a Austrália instaurou o The News Bargain Code para regulamentar a relação entre veículos de mídia locais e as gigantes da tecnologia, mas hoje o governo australiano trabalha para contemplar a temática da IA junto aos publishers, segundo Rech.

Debate realizado na última semana pelo Conselho de Comunicação Social do Congresso para debater o PL 2.338/2023, o chamado “PL da inteligência artificial”, que cria um marco regulatório para a IA no Brasil, abordou a proteção do jornalismo e dos direitos autorais. Segundo a Agência Senado, Marcos Alves de Souza, representante do Governo Federal, indicou que a falta de regulamentação favorece disputas judiciais sobre conteúdos protegidos.

O projeto de lei obteve aprovação do Senado e encontra-se na Câmara dos Deputados.

*Fonte: Meio&Mensagem