ARTIGO: TV local busca novos caminhos para conquistar a próxima geração de audiência

Foto: Kevin Woblick/Unsplash

A televisão local atravessa um período de transformação em sua relação histórica com a audiência. Durante décadas, as emissoras se beneficiaram de um processo natural de renovação de público, no qual hábitos de consumo eram transmitidos entre gerações dentro das famílias. Com a fragmentação do consumo de mídia e a multiplicação das plataformas digitais, esse mecanismo passou a perder força, exigindo das organizações novas estratégias para atrair e fidelizar espectadores.

Embora as emissoras locais continuem dispondo de ativos relevantes, como estruturas de reportagem, cobertura comunitária, capacidade de acompanhar eventos de última hora e relacionamento consolidado com as regiões onde atuam, o ambiente competitivo mudou. O acesso à informação passou a ocorrer por diferentes canais digitais, incluindo plataformas de vídeo, redes sociais, aplicativos e serviços de streaming, alterando o processo de descoberta e consumo de notícias.

Dados do Digital News Report 2026, publicado pelo Reuters Institute, mostram que 54% dos entrevistados em 48 mercados utilizaram redes sociais e plataformas de vídeo para acessar notícias na semana anterior à pesquisa, índice superior ao registrado para televisão (52%) e para sites e aplicativos jornalísticos (51%). Nos Estados Unidos, a diferença é ainda maior: 56% dos entrevistados recorreram às redes sociais para se informar, enquanto televisão e sites de notícias registraram 45% cada. Esses números refletem mudanças estruturais na forma como diferentes gerações acessam conteúdo jornalístico.

Nesse contexto, o desafio das emissoras locais deixa de estar restrito à programação linear e passa a envolver estratégias de distribuição multiplataforma, desenvolvimento de audiência e presença digital. O estudo sugere que uma emissora pode manter liderança em sua faixa tradicional de transmissão e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades para estabelecer vínculos com públicos mais jovens, cuja jornada de consumo ocorre predominantemente em ambientes digitais.

A transformação também atinge a gestão de pessoas e a formação de lideranças. Segundo a análise, o setor tem reconhecido a importância de profissionais com experiência em streaming, plataformas digitais e desenvolvimento de audiência. No entanto, as estruturas organizacionais ainda tendem a valorizar competências associadas ao modelo tradicional de televisão, criando um descompasso entre os objetivos estratégicos e os critérios de contratação e promoção.

Para a indústria de mídia, o cenário reforça a necessidade de integrar competências editoriais, tecnológicas e de distribuição. Mais do que preservar a audiência atual, o desafio das emissoras locais passa a ser construir relevância em ambientes digitais, estabelecendo novas formas de relacionamento com consumidores de conteúdo que transitam entre televisão, vídeo online, redes sociais e plataformas de streaming. O movimento evidencia que o futuro da televisão local dependerá cada vez mais da capacidade de combinar a credibilidade de sua atuação histórica com estratégias adequadas às novas dinâmicas de consumo de informação.

Fernando Moura – Sócio da Porsupuesto Comunicação, jornalista e editor-chefe da Revista da SET e professor Universitário

*Fonte: SET Portal