Marcelo Souza, Arash Pendari, Antoine Morel e Rodolfo Bastos no SET Expo 2026. Foto: Tela Viva/Reprodução
O formato de vídeo vertical não é mais uma tendência passageira, mas um padrão de consumo estabelecido que exige linguagem própria, atuação humana aliada à inteligência artificial e estratégias específicas de negócios. Estas foram as conclusões dos executivos do setor audiovisual durante painel mediado pelo conselheiro deliberativo da SET e diretor executivo de Tecnologia da Globo, Marcelo Souza, no SET Expo 2026, que acontece nesta semana em São Paulo. O debate destacou como a indústria de mídia tem adaptado suas produções para dialogar com uma audiência adulta que consome, em média, 6,5 horas semanais de conteúdos verticalizados.
O impacto financeiro do formato reflete a mudança de hábito. De acordo com o CEO da Vionlabs, Arash Pendari, o mercado de microdramas em vídeo vertical já movimenta US$ 14 bilhões. O executivo ressaltou que, apenas no primeiro semestre de 2026, plataformas de streaming como Disney+, Netflix e Amazon Prime lançaram iniciativas focadas exclusivamente no formato.
“Hoje, 85% dos usuários assistem aos vídeos verticais no mudo”, afirmou Pendari, destacando a necessidade do uso de legendas para reter a atenção nos primeiros três segundos de exibição, período em que ocorre uma taxa de abandono de 60% no aplicativo TikTok.
No Brasil, os conglomerados de mídia reestruturaram suas redações para essa realidade. O diretor de Produtos Digitais da Globo, Rodolfo Bastos, explicou que a transição da empresa ganhou força no início de 2025. Como resultado, o consumo de vídeos verticais nos portais G1, GE e Gshow saltou de um patamar de 3% a 4% das visualizações totais para cerca de 40% atualmente. A estratégia de aproximação com a economia dos criadores de conteúdo resultou na criação da plataforma GloboPop e no lançamento de uma novela em formato vertical protagonizada pela influenciadora Jade Picon, distribuída também no Globoplay.
A produção de propriedades intelectuais pensadas nativamente para as redes é outra frente de monetização. O diretor do Canal UOL, Antoine Morel, detalhou que a empresa possui uma cadeia de produção para o conteúdo vertical que atua de forma separada do canal linear, lançado em 2024. Morel citou o programa “Lab da beleza”, apresentado por Vanessa Rozan, como exemplo de atração seriada desenhada para o ambiente móvel. O executivo também pontuou o uso de inteligência artificial para ilustrar fatos históricos no perfil UOL SP, mesclando a tecnologia à locução de jornalistas da empresa.
Apesar da adoção de novas ferramentas, o interesse do público por conteúdos gerados inteiramente por inteligência artificial caiu. Pendari apresentou dados mostrando que a preferência por esse tipo de material recuou de 60% em 2023 para 26% neste ano, sendo frequentemente percebido como spam. A recomendação da Vionlabs é utilizar o processamento de dados para escalar o trabalho operacional — como detecção de cenas, legendagem e análise de conformidade das imagens —, mantendo o olhar humano para a decisão editorial e a elaboração criativa.
Para o futuro próximo, o acervo histórico dos estúdios surge como um ativo central nas estratégias corporativas. O painel demonstrou que o engajamento orgânico nas redes, responsável por gerar 2 bilhões de visualizações para filmes antigos como os da saga “Crepúsculo” e impulsionar séries como “Wandinha”, revela um caminho lucrativo e de baixo custo de produção. A recomendação aos grupos de mídia é tratar o vídeo vertical como uma linha de negócios autônoma, capaz de rentabilizar os arquivos televisivos ao mesmo tempo em que disputa a atenção do público nos dispositivos móveis.
*Fonte: Tela Viva





