Imagem: Blog Accurate/Reprodução
Por muito tempo, a regra da comunicação corporativa foi simples. Para existir, era preciso ser visto. Publicar com frequência, responder rápido, ocupar todos os canais, entrar em toda tendência e seguir a trend do momento. A grande questão é que a inteligência artificial levou essa lógica a um novo patamar. Agora, qualquer empresa consegue produzir textos, adaptar tons de voz e comentar os assuntos do dia antes mesmo de alguém terminar o café.
O único problema é que:
Se as ferramentas generativas tornaram mais fácil para qualquer marca ocupar espaço, será que a relevância ainda está na visibilidade?
O atual momento nos mostra que não basta apenas estar presente nas buscas, nas redes ou nas respostas geradas por IA. Ela precisa ter construído algo que mereça ser encontrado. Uma ideia, uma leitura, uma perspectiva que circule fora do seu próprio perfil e continue viva quando o post termina.
E esse cenário ganha ainda mais peso porque, hoje, os algoritmos também ajudam a organizar a informação que chega até nós. Quando alguém pergunta a uma inteligência artificial sobre uma tendência, uma categoria ou uma empresa, ele não está buscando apenas quem publicou mais. Está buscando informações, referências que tenham contexto, consistência e validação em outros espaços.
É nesse ponto que plataformas editoriais, newsletters e comunidades ganham nova força. Marcas têm buscado ambientes como o Substack não apenas para abrir mais um canal, mas para desenvolver textos mais densos, construir relação com uma comunidade e participar de conversas que não cabem em uma legenda.
Segundo levantamento da Increv de 2026, a plataforma da Substack reúne mais de 35 milhões de assinantes ativos por mês, ultrapassa 5 milhões de assinaturas pagas e conta com mais de 17 mil autores gerando renda. Os números ajudam a mostrar que, em meio à abundância de conteúdo rápido, ainda existe público disposto a dedicar tempo e dinheiro a ideias que ofereçam contexto, curadoria e profundidade.
É uma forma de criar presença com memória, não só com frequência.
A pesquisa “Mais do Mesmo”, da Página 3, mostra que esse desconforto já aparece nas relações pessoais. Entre cerca de 600 brasileiros com acesso a tecnologias digitais, 63% afirmam já ter pedido para uma IA escrever mensagens de cunho pessoal. Isso sugere que a ferramenta já ocupa um espaço íntimo na forma como as pessoas se expressam.
Ao mesmo tempo, 63% acreditam que as pessoas eram mais autênticas e diferentes entre si no passado. Outros 49% dizem já ter recebido mensagens que pareciam ter sido feitas por ferramentas generativas, enquanto 72% gostariam de ser mais autênticos. Assim, a contradição se torna clara. Quanto mais a tecnologia ajuda a formular o que dizemos, maior a percepção dessa falta de personalidade.
A inteligência artificial não criou sozinha essa sensação de homogeneidade. Ela acelera uma dinâmica já conhecida. Quando a prioridade é responder rápido, a ferramenta tende a devolver o que é mais provável, mais reconhecível e mais parecido com o que já circulou. O texto pode estar correto, simpático e bem estruturado. Só que ele dificilmente deixa alguma coisa reverberando. É uma lógica que encontra paralelo no funcionamento do cérebro. Diante de uma tarefa conhecida, tendemos a recorrer aos caminhos já consolidados, porque eles exigem menos esforço. Com as IAs, algo semelhante acontece. Quanto mais previsível e familiar for o padrão, mais facilmente ele é reproduzido.
Talvez por isso faça tanto sucesso o formato de conteúdos que reúne “coisas interessantes que li, vi e ouvi nos últimos tempos”. Essas listas não são apenas recomendações. Elas funcionam como uma busca por repertório. Uma tentativa de sair da atualização infinita e encontrar referências que ajudem a pensar, conversar e formular uma opinião própria.
Os dados levantados pela Página 3 apontam para a mesma direção. Embora 39% dos entrevistados considerem que os melhores profissionais do futuro serão aqueles que souberem fazer os melhores prompts, 60% valorizam a análise crítica das informações geradas por IA. Outros 49% destacam a habilidade de interpretar antes de agir.
Em um ambiente em que qualquer marca consegue soar articulada, talvez a pergunta mais útil não seja como produzir mais. E sim, o que ela tem a oferecer quando ninguém está olhando para o seu feed.
Georgia Reinés – Cofundadora da Página 3

*Fonte: Meio&Mensagem





