Sintonizados, Especial FM – EP. 1: Rádio e TV também são mídias on-line

A internet é uma mídia mais antiga do que parte do mercado costuma reconhecer. Já o rádio e a televisão, frequentemente classificados como meios tradicionais ou analógicos, participam do ambiente digital há décadas. Essa é a reflexão que conduz o primeiro episódio do Sintonizados, Especial FM, novo videocast mensal da Associação Mineira de Rádio e Televisão (AMIRT), realizado em parceria com Fernando Morgado, consultor e especialista em comunicação e inteligência de negócios.

Com o tema “A internet é velha mídia; rádio e TV são mídias on-line e digitais”, a conversa trata da trajetória dos meios de comunicação, das mudanças na distribuição de conteúdo e da necessidade de atualizar a percepção sobre a radiodifusão.

A participação da radiodifusão na história da internet
Ao recuperar a história da internet comercial no Brasil, iniciada em 1º de maio de 1995, Morgado destaca iniciativas de emissoras de rádio e televisão que contribuíram para a expansão e a popularização da rede. Entre os exemplos citados estão o registro dos primeiros domínios de emissoras, a disponibilização de conteúdos jornalísticos on-line, as transmissões por streaming e os investimentos em provedores de acesso.

O consultor lembra que, em 1997, a TV Manchete disponibilizou na internet uma versão on-line de seu telejornal. No mesmo ano, a televisão brasileira realizou sua primeira transmissão por streaming, com uma edição do Fantástico. Ele também menciona iniciativas do SBT, da Band e de emissoras de rádio, como a CBN e a Jovem Pan, na exploração de formatos e serviços digitais.

Para Morgado, esses registros mostram que, além de acompanhar a chegada da internet, a radiodifusão também investiu em sua expansão. 

“A internet é velha mídia”, afirma. 

Na avaliação do consultor, a classificação de rádio e televisão como meios exclusivamente analógicos ou off-line não representa a atuação desses veículos nos dias atuais.

Produção e distribuição de conteúdo
Durante o episódio, Morgado diferencia as transformações na linguagem dos meios das mudanças nas formas de distribuição. Segundo ele, a internet ampliou as possibilidades de circulação dos conteúdos, mas não eliminou as características próprias do rádio e da televisão.

Na avaliação do consultor, a presença multiplataforma exige que os profissionais trabalhem diferentes linguagens simultaneamente, adaptando a comunicação a cada canal sem perder a essência dos formatos. Essa dinâmica também torna a rotina mais complexa, pois demanda novas habilidades e maior capacidade de adaptação.

“Quem fica dizendo que a tecnologia tornou o trabalho do comunicador mais fácil, mais leve, está mentindo. Está cada vez mais complexo, está cada vez mais difícil, porque você tem que fazer muita coisa ao mesmo tempo e mais coisa”, afirma.

Nova narrativa para o setor
Outro ponto central da conversa é a percepção de que rádio e televisão ainda são apresentados, inclusive por profissionais do próprio setor, a partir de características de décadas atrás. Para Morgado, essa visão desatualizada prejudica a compreensão do mercado publicitário sobre o alcance e as possibilidades atuais da radiodifusão.

Ele defende que emissoras e entidades representativas construam uma narrativa baseada em dados e fatos, capaz de demonstrar a evolução dos meios e seu valor comercial. O especialista também aponta a necessidade de aproximar academia e mercado, contribuindo para uma formação profissional mais alinhada às demandas atuais.

“Eu repito muito, sabe? Eu bato muito nessa tecla. A grande guerra que a gente tem na radiodifusão é a guerra de narrativa. É o que a gente fala da gente e os outros falam da gente”, afirma.

Na discussão sobre o ambiente regulatório e a concorrência com as grandes plataformas digitais, Morgado também destaca diferenças nas regras aplicadas aos setores. Para ele, a atualização do discurso da radiodifusão é um passo importante para fortalecer sua representação diante do mercado e das autoridades.

Dados e presença multiplataforma
A conversa aborda ainda a importância da cultura de dados para a tomada de decisões. Morgado observa que a interpretação das métricas de cada plataforma pode orientar a produção de conteúdo e a compreensão do comportamento do público.

Ao tratar da confiança nas pesquisas, o especialista aponta fatores como interesses comerciais, falta de conhecimento técnico e dificuldades de interpretação de informações. Nesse contexto, cita dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf). Em 2024, apenas 10% da população brasileira de 15 a 64 anos alcançou o nível proficiente de alfabetismo funcional, que inclui habilidades de interpretação de textos, tabelas e gráficos complexos.

Para as emissoras locais, Morgado recomenda acompanhar o público nos diferentes canais, sem depender exclusivamente da remuneração oferecida pelas plataformas digitais. Segundo ele, os dados obtidos na internet também podem complementar pesquisas convencionais de audiência e ajudar na construção de argumentos comerciais para o rádio e a televisão.

“O negócio é o conjunto. E, para você ter um conjunto forte, um conjunto multiplataforma forte, você precisa estar em todo lugar”, resume.

Ao final do encontro, Morgado defendeu que a revisão de conceitos consolidados pode contribuir para mudanças na forma como o setor se apresenta e planeja seu futuro.

“O incômodo é muito bom porque leva para frente. O comodismo não leva para frente. No mínimo, deixa você no mesmo lugar”, conclui.

Confira o episódio completo:

Sintonizados, Especial FM
O primeiro episódio do Sintonizados, Especial FM, inaugura uma série de conversas mensais sobre assuntos pouco explorados no setor de comunicação e radiodifusão, além de temas atuais e orientações práticas para as emissoras diante das transformações do mercado. O convidado, Fernando Morgado, é consultor e palestrante, com quase 20 anos de experiência nas áreas de mídia e inteligência de negócios. É mestre em Gestão da Economia Criativa e especialista em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM.